Esquecimento do Passado – André Luiz Gadelha

ESQUECIMENTO DO PASSADO

Jarbas era professor universitário. Ministrava aulas num curso de engenharia e era conhecido pela sua forte intolerância junto aos discentes. Não permitia o mínimo deslize, sem mesmo procurar saber os motivos que o provocaram.

Se um aluno chegasse atrasado a uma aula sua, Jarbas não permitia a entrada, ainda que o atraso fosse de uns poucos minutos.

Nos trabalhos que passava às turmas, fazia cobranças descabidas e que nada tinham a ver com a verificação daquilo o que foi ensinado.

Suas provas eram elaboradas de forma que as questões exigiam tempo de resolução bem acima do tempo que ele concedia. E, se alguém faltasse, a 2ª chamada era elaborada com mãos de ferro.

E assim, Jarbas ia construindo a sua carreira acadêmica: exercendo a intolerância e a incompreensão e angariando vibrações contra si que assemelhavam-se a dardos infectados com forte veneno.

Num dia, ao fim da tarde, sentado a uma mesa de lanchonete, eis que Jarbas encontra Ernesto.

Ernesto foi seu colega de faculdade. Se conheceram no curso de engenharia.

Durante a graduação, se tornaram amigos e ajudavam-se mutuamente em tudo o que fosse preciso: trabalhos, pesquisas e estudos. Até no lado pessoal, Jarbas apoiou Ernesto e vice versa.

Após a formatura, seguiram caminhos diferentes e, tal como acontece com muitos, os imperativos da vida profissional acabaram por fazer que não mais se vissem.

Mas, a necessidade que Jarbas tinha em aprender fez com que o “acaso” promovesse esse encontro.

Após as saudações, Jarbas convida Ernesto a dividir a mesa em sua companhia e iniciaram animada conversa.

Primeiro, cada um contou qual foi a sua trajetória após a formatura, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Depois, Ernesto fez uma nostalgia ao passado:

– Jarbas, Jarbas. Ralamos muito nas nossas vidas, mas contamos com muita ajuda. O Alto colocou muita gente boa em nosso caminho. Quantas vezes a gente chegava atrasado às aulas, porque saía do trabalho e pegava engarrafamento ou a nossa chefia segurava a gente até mais tarde. Mas os professores deixavam a gente entrar.

– Aliás, lembra daquele dia da prova de Mecânica dos Materiais, quando você teve serviço extra?

Jarbas, pensativo, disse:

– Sim, lembro. O professor deixou-me ficar uma hora a mais, pois eu tinha chegado uma hora atrasado.

Ernesto trouxe outra lembrança:

– E aquela professora de Cálculo III? Você precisava tirar 7,0 na prova final. Mas, você tirou 6,8 e ela quebrou um galhão seu, não foi?

Jarbas, mais pensativo ainda, disse:

– Ela colocou “aprovado” ou “reprovado” ao lado de todos os nomes da turma. Menos no meu. Então, fui procurar por ela pra saber a minha situação.

– Parece que você tinha deixado uns itens em branco, não foi? – Perguntou Ernesto.

– Foi isso mesmo. Havia comentado que sabia fazer os itens, mas não tinha dado tempo. Então, ela deixou eu fazer os itens na frente dela e me deu um 8,5. – Relembrou, Jarbas.

E as lembranças de Ernesto prosseguiam. A facilidade com elas fluíam pelo cérebro do amigo fazia parte das providências para o aprendizado de Jarbas:

– Jarbas, lembra daquela vez que fizemos Fenômenos de Transporte e só tinha uma turma no turno da tarde? Justamente no horário em que dávamos aulas naquele preparatório que a gente trabalhava? Ali, sinceramente, eu achava que iríamos fazer aquela matéria só no outro ano, atrasando a nossa formatura. A coordenação do preparatório não podia mudar os horários. Iria acabar dispensando a gente.

Jarbas continuou:

– E não podíamos passar por isso, pois precisávamos do dinheiro das horas aulas.

Ernesto, disse:

– A nossa esperança era que o professor deixasse a gente fazer a matéria sem assistir as aulas. Ali, eu achava demais.

Jarbas, completa:

– Lembro que fui pedir a ele e ganhamos um sim. Ele só exigiu que a gente fizesse as provas, aliás, nada mais justo. Estudamos sozinhos, fizemos as provas e passamos. Aprendemos a matéria só nós dois.

Ernesto, disse:

– Isso mesmo. Temos muito o que agradecer. Sabe, Jarbas? Sempre que eu posso ajudar alguém na consultoria eu ajudo. Sempre que um funcionário meu precisa de alguma coisa ou de uma quebrada de galho eu faço. Não dá para esquecer o passado. Um dia precisamos e fomos ajudados. Agora, é a nossa vez de ajudar a quem precisa.

Jarbas, um tanto quanto constrangido, diz:

– Sim, tens razão.

A conversa ainda durou uns 30 minutos. Em seguida, trocaram números de telefone e se adicionaram nas redes sociais. Despediram-se, mas na certeza de que a antiga amizade voltaria e de que, dali em diante, Jarbas se tornaria um professor diferente.

Que Jesus continue nos abençoando

Maricá, 09 de Janeiro de 2016

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3 comentários sobre “Esquecimento do Passado – André Luiz Gadelha

  1. Olá, Gadelha! Linda história! Deus nos dá o conhecimento como um dom, o que fazemos com ele segue por nossa conta, mas devemos ter em mente que esse presente deve ser repartido. Tudo em nossa vida não é nosso, é um empréstimo. Um dia teremos que dar conta, não é verdade?
    Uma belíssima história, parabéns!
    Um abraço,
    Semíramis

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