Razao e Desajuste – André Luiz Gadelha

RAZÃO E DESAJUSTE

 

1ª PARTE:

– Lamento senhor, mas encontramos o corpo da sua esposa desaparecida.

Essas foram as palavras do delegado Monteiro, chefe das buscas por Ana Amélia, esposa de João Henrique, que estava desaparecida fazia 3 dias.

João Henrique, após receber a infeliz notícia, pede a todos que o deixem sozinho em seu escritório no banco onde era diretor, por volta do ano 1900. Em lágrimas, senta-se na sua cadeira e, com os pertences encontrados da sua, agora, finada esposa nas mãos, lamenta o ocorrido mergulhado em forte arrependimento.

Ana Amélia e João Henrique se conheceram num jantar oferecido pelo Clube da Cidade aos seus ilustres sócios, dentre os quais, as famílias de ambos.

Nos dias vindouros, vieram as conversas e o namoro, com planos para o matrimônio.

Mas, isso foi até a noite de comemoração do 18º aniversário de Maria Antônia, onde ambos estavam presentes.

No auge da festa, Maria Antônia é apresentada aos convidados. Ao serem postos frente a frente, ela e João são avassalados por mútuo encanto. Nem sabiam quais os problemas que estavam por vir.

João Henrique encantou-se por Maria Antônia, amiga de infância de Ana Amélia, sua noiva.

Tratava-se de um trio de jovens com ideias à frente do seu tempo, porém prestes a mergulhar num mar de contradições que os aprisionariam a tristes compromissos.

João Henrique tinha consciência dos planos que havia entre ele e Ana Amélia, porem o coração bradava por Maria Antônia. O que fazer então?

Resolve ter uma conversa franca com Ana Amélia, findando os planos matrimoniais existentes entre eles e tornando-se livre para Maria Antônia. Afinal, não havia sentido formar um lar e uma família com quem não se ama. Para que isso? Somente para atender as convenções sociais? Cada qual tem o direito de casar com quem ama e, no seu caso, não era, mais, com Ana Amélia.

Porem, Ana Amélia, conhecida por sua maturidade além da sua idade e, até, certa frieza, imposição feita pela morte prematura de seu pai, almirante da marinha local, levando-a a dividir, com a mãe, as responsabilidades sobre o lar e os cuidados com os irmãos mais novos, agiu de forma adversa a esperada por João.

Não aceitando o fim dos planos, entristeceu-se fortemente e virou as costas para João e Maria, encerrando, com traumas, um noivado e uma amizade.

Vida que segue, João Henrique e Maria Antônia fazem os preparativos para o casamento, após alguns meses de namoro e noivado.

Mas, chega uma carta nas mãos de João, avisando-lhe de um deslize pretérito de Maria Antônia.

Aconteceu que Maria Antônia, ao 17 anos, levada pelas promessas de um colecionador de mulheres e pelos devaneios românticos a que toda a menina dessa idade e naquele tempo se submetia, engravida.

Qual era o problema em antecipar etapas ao casamento, desde que o mesmo ocorresse?

Porem, não ocorreu.

Foram os 9 meses mais infernais na vida dessa menina, que, com a ira do pai sobre a sua cabeça a todo o tempo, é levada a abortar, mergulhando em forte depressão.

Após alguns meses, aconselhada carinhosamente pela mãe, resolve dar uma segunda chance a si mesma, libertando-se da depressão. É quando acontece a festa onde conhece o seu futuro marido.

No início, ela pensa em cientificar João a respeito da ocorrência passada. Afinal, era o honesto a se fazer, num tempo em que ser virgem era uma das exigências ao casamento. Porém, novos conselhos maternos a fizeram recuar.

Com a carta no bolso, João chama Maria para uma conversa reservada e faz a pergunta que ainda poderia reverter a situação: “Maria, sei que estamos a algumas horas do casamento. Mas, você tem algo importante para me dizer? Algo que seja necessário que eu saiba?”

Após as negativas de Maria, João mostra a carta e conta o que leu, anunciando o fim de tudo.

De nada adiantaram as súplicas mergulhadas em lágrimas de Maria, tentando explicar-se.

João Henrique segue para uma casa de tolerância, na esperança de que o álcool desse fim à profunda mágoa que sentia.

No meio da bebedeira, surge Ana Amélia que soube do ocorrido e foi buscar o amado, levada por novas esperanças.

Eis que João, levado pelo ego ferido, pelo efeito do álcool, pela raiva e pela busca de uma nova chance de ser feliz, leva Ana a um dos quartos e faz mulher.

No dia seguinte, João, agora sem as ações etílicas na mente, percebe que foi levado pela inconsequência.

Honrando as suas obrigações de homem, casa-se com Ana Amélia, porém ainda mergulhado em mágoa e tendo Maria Antônia como única ocupante do seu coração. Para ele, Ana Amélia era a vítima de um mal que havia feito, sendo não mais que uma amiga a qual nutria profundo carinho e admiração.

No início, Ana Amélia acreditava que poderia reverter a situação, vindo a tornar-se a esposa de João não só de fato, mas, também, de sentimentos, coisa que nunca aconteceu.

“Quem sabe um filho? Afinal, toda a mulher tem maiores chances quando dá um filho a um homem”, pensava Ana que, no entanto, era estéril. Descoberta feita após várias vãs tentativas.

Os anos levaram Ana Amélia ao cansaço e ao suicídio, jogando-se de uma pedra à beira do mar.

2ª PARTE:

Estamos no ano de 2090, na Maternidade Santo Antônio, onde se inicia a nova encarnação de Simone, fruto do enlace amoroso de Carlos e Patrícia.

Era um compromisso hercúleo assumido por esse casal unido pelos verdadeiros laços do amor, uma vez que Simone carregava consigo sérios problemas físicos consequentes da infeliz decisão do suicídio na época que era Ana Amélia.

Ao precipitar-se nas pedras na beira do mar, Ana Amélia havia batido com a cabeça. Porem, esse ferimento levou-a a um desmaio. O óbito foi por conta do afogamento. Ao retornar como Simone, esse espírito ocupa um corpo com má formação no crânio e no cérebro, o que limitaria a sua capacidade mental. Seria muito difícil que Simone acompanhasse as crianças da sua idade. Também carregava um par de frágeis pulmões que facilmente se inflamavam e se enchiam de líquidos, fazendo com Simone fosse uma criança com fortíssimas limitações respiratórias.

Mas, Carlos e Patrícia recebem a filhinha de braços e corações abertos, dispostos a enfrentar todo e qualquer esforço em prol da sua saúde e do seu bem estar, buscando todo e qualquer tratamento que pudesse, ao menos, atenuar a sua situação física. Para isso, foi concedido ao casal uma reencarnação com o mesmo conforto financeiro do passado, quando eram João Henrique e Maria Antônia.

Na espiritualidade, João e Maria entendem que, ao atenderem aos apelos dos seus corações, naquela festa de 18 anos, passaram por cima dos sentimentos de Ana Amélia.

É claro que Ana deveria aceitar o fato de que o amor não é imposto. É um sentimento.

Mas, as coisas deveriam ser paulatinas e cuidadosas.

João também não deveria ter alimentado as novas esperanças de Ana, quando a fez mulher. Ainda que sob o efeito do álcool e da mágoa, chegou a ter uma ponta de consciência enquanto a levava para o quarto da casa de tolerância.

Desta forma, João e Maria, agora Carlos e Patrícia, estavam tendo uma nova chance de demonstrar o carinho e o zelo que não tiveram por Ana, agora, Simone.

Cuidariam dela lado a lado, para que Simone aprendesse a importância do amor e, não, da obsessão.

Aliás, obsessão essa que atravessara as décadas, perpetuando-se em Simone na forma de um mal chamado Complexo de Electra, exigindo firmeza de Carlos e infinita paciência de Patrícia.

Que Jesus continue nos abençoando

Rio de Janeiro, 30 de Dezembro de 2015

OBSERVAÇÃO: essa estória é uma adaptação de parte da novela O Direito de Nascer do irmão Felix Benjamin Caignet Salomón (1892 – 1976)

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