A Irmã Doente – André Luiz Gadelha

A IRMÃ DOENTE

Naquele sábado, a sala da Tia Clarice não se encontrava em boas vibrações.

Por ser o primeiro sábado do mês, havia distribuição de cestas básicas às famílias carentes e devidamente cadastradas pelos irmãos do departamento de assistência social do Centro Espírita Jesus Cristo.

Uma das irmãs carentes havia levado a sobrinha, mergulhada em fortes envolvimentos desfavoráveis, na esperança de encontrar algum auxílio.

Pela idade da jovem, ela foi encaminhada à sala da Tia Clarice.

Mas, a jovem não queria ir para a sala de forma alguma. Nem mesmo ali queria estar.

Precisou ser quase que arrastada pela irmã Juliana.

Chegando à sala, Tia Clarice e a sua turma de jovens da pré mocidade a receberam com um caloroso boas vindas.

Porem, a resposta à acolhida não foi bem recebida pela jovem envolvida:

– Bom dia?! Bom dia nada! Eu nem queria estar aqui nesse lugar chato!

Pronto! Foi o suficiente para desvirtuar toda a harmonia que havia no local.

Os adolescentes, ainda que tenham conservado o silêncio, mergulharam em pensamentos negativos.

A irmã Juliana, em contato com a jovem já há algum tempo, mostrava sinais de impaciência.

Todos deixaram Clarice sozinha na tentativa de recuperar a boa vibração perdida.

– Minha irmã, não fale desse jeito. Pelo que vejo, é a sua primeira vez aqui. Se você acalmar o seu coração e aceitar ficar sentada junto com esses outros jovens, tenho a certeza de que mudará de opinião. Permita que a gente te receba com carinho. Você vai gostar.

Mas, a tentativa de Clarice foi em vão. A resposta da jovem apenas deu continuidade às demonstrações de revolta:

– Duvido que eu goste! A minha tia é uma chata! Me trouxe para cá porque a minha mãe, que é outra chata, mandou! Eu quero ir embora.

Falava a jovem ao mesmo tempo em que se debatia sobre a cadeira, desejando abandonar aquele recinto que, realmente, agredia o sem estado naquele momento. Não conseguia cumprir o seu intento por conta de Juliana que, com todas as suas forças, segurava a menina.

Então, Clarice, falou:

– Minha irmã, tenho a certeza que vais mudar de ideia. Mas, precisamos que você nos dê uma chance. Uma chance para mostrar como podemos te receber bem. Olha, só. A minha certeza é tanta que vou pedir para a irmã Juliana te soltar e você vai ficar um pouco. Se continuar achando que aqui é chato, pode levantar-se e ir embora.

Continuando, Clarice pediu a Juliana que soltasse a menina.

A menina, agora livre, fitou Clarice com um olhar diferente, mas que só durou milésimos de segundo.

Rapidamente, a menina levantou-se e correu para fora da sala.

Porém, tropeçou numa das mesas, precipitando-se ao chão e batendo com a cabeça.

De imediato, o sangue brotou pelo ferimento aberto na testa.

Clarice e Juliana logo acudiram a menina, levando-o ao posto médico da casa, onde ela foi atendida e recebeu um curativo.

Nada mais grave além do ferimento aberto ocorreu.

Mas, Clarice ainda tinha algo a resolver.

Chegando à sala de aula, ela sente nitidamente a vibração de revolta contra a menina acidentada e um ar de vingança pelo acidente.

Clarice, claro, não podia permitir que os jovens sob a sua responsabilidade retornassem aos seus lares com essa carga na alma. Então, ela fala, com austeridade, porem, não sem ternura:

– O que está acontecendo com vocês? Querem falar alguma coisa? – Diz Clarice.

Lucas, o mais chateado de todos e o pavio curto da turma fala sem rodeios:

– Desculpe-me Tia Clarice, mas foi bem feito o que aconteceu. A senhora foi um doce com ela, tratou-a bem, falou direito com ela e viu o que ela fez? Bem feito! Foi castigo.

Clarice, então, ensina:

– Lucas, meu anjo. Sabemos que o Nosso Pai não castiga ninguém. Ela sofreu a consequência dos seus próprios atos. E não te refiras a uma irmã sua dessa forma. Ela erra como todos nós erramos e erraremos.

Carla faz um aparte:

– Não, tia. Concordo com o Lucas! A senhora não merece isso! Ela foi burra! Será que ela não entendeu que a senhora deu um voto de confiança a ela quando pediu para a Tia Juliana soltá-la? Ela poderia ter ficado e, se não gostasse, iria embora numa boa, andando calmamente. Não teria caído.

Clarice, então, ensina:

– Quando estamos envolvidos, Carla, somos incapazes de entender as coisas mais simples. Quem dirá essa menina que não deve saber o que é um voto de confiança? Talvez ela nunca tenha tido isso.

Os apartes se seguiram, até que César, o mais ponderado da turma, falou:

– Tia, se fosse uma irmã doente da cabeça, tudo bem. A senhora não vê como nos damos bem com os nossos irmãos excepcionais? Temos a maior paciência com eles. Jogamos bola com eles. Ninguém reclama quando eles erram as jogadas, pois nós entendemos as suas condições. Nenhum de nós acha ruim quando eles falam alto no salão de reunião, pois eles habitam um corpo que os limita no discernimento. Agora, essa garota, não. Vimos muito bem que ela não tinha nada de doente.

Clarice fita a turma com o seu olhar maternal e, mais uma vez, ensina:

– Meus jovens queridos…. E quem vos disse que ela não é doente? Vocês acham que alguém, no pleno governo das suas vontades, agiria como ela agiu? Ela também é uma doente. E, da mesma forma que os irmãos excepcionais, ela precisa de compreensão e carinho.

E, chegando próximo ao varandão do corredor das salas de aula, Clarice convida os seus jovens:

– Levantem-se com cuidado e venham ver o que vejo.

Eis que todos veem a jovem, agora não mais envolvida, abraçada à irmã que havia lhe feito o curativo na testa.

O acidente foi de grande proveito para os mentores da casa, pois, assustada com o que aconteceu, a jovem se deixou ajudar pela equipe médica da casa e a espiritualidade pode agir com os passes que se faziam necessários para inverter o quadro de envolvimento daquela irmã.

Depois do curativo da testa, a nossa irmã enfermeira tratou de fazer mais um curativo: o da alma.

Em conversa terna, a jovem ouviu conselhos e boas orientações.

Quanto aos alunos de Clarice, eles, em silêncio, voltaram aos seus lugares e Clarice prosseguiu:

– Reflitam sobre o que vocês viram nesses dois momentos. Agora fechemos os olhos e vamos a nossa prece final. Hoje, eu faço.

Que Jesus nos abençoe

Rio de Janeiro, 09 de Dezembro de 2015

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2 comentários sobre “A Irmã Doente – André Luiz Gadelha

  1. Cheguei da bahia hoje aqui no Rio gostaria d saber do endereço d um centro Kardecista qui em Guadalupe Rio meu irmão esta enfermo é urgente por favor me ajudem ROSICLEIDE

    “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…” Date: Wed, 16 Dec 2015 03:21:19 +0000 To: rosicleide123@hotmail.com

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