CEI e o panorama espírita global

Charles Kempf, francês, engenheiro formado na École Nationale Supérieure des Mines de Paris, é atuante no movimento espírita francês desde 1992, onde dirige o Centro de Estudos Espíritas Léon Denis na cidade de Thann, na Alsácia, França (www.leon-denis.org). Participa do Conselho Espírita Francês (CSF), que é a entidade federativa que representa o Espiritismo na França (www.spiritisme.org), bem como do Mouvement Spirite Francophone (www.lmsf.org). Casado com Márcia, brasileira de Recife (PE), Charles se tornou espírita em 1986 no Brasil, onde viveu entre 1982 e 1990. Colabora com a publicação da Revista Espírita (Revue Spirite), fundada por Allan Kardec em 1858, e com a ampliação da divulgação de obras espíritas pela internet, disponibilizadas pelo site da Encyclopédie Spirite (www.spiritisme.net). Conhecendo fluentemente os idiomas português, inglês, espanhol e alemão, além do francês, seu idioma natal, assumiu em junho de 2012 a Secretaria Geral do CEI – Conselho Espírita Internacional, entidade que tem como finalidade promover a união solidária das instituições espíritas de todos os países e a unificação do movimento espírita mundial, bem como o estudo e a difusão da Doutrina Espírita em seus três aspectos básicos: científico, filosófico e religioso.

RIE – O Livro dos Espíritos completou 157 anos em 2014. Como anda o Espiritismo na França?
Charles Kempf – Na França, O Livro dos Espíritos continua sendo considerado a obra base do Espiritismo. Como a versão original em francês já é livre de direitos autorais, pode ser encontrada com facilidade em pelo menos sete editoras, incluindo a Edicei do Conselho Espírita Internacional. Podemos encontrá-la também através de download gratuito, no website da Encyclopédie Spirite, http://www.spiritisme.net, entre outros. Assim, estimamos que o livro está sendo lido por milhares de pessoas, a cada ano, na França. Ainda há muito preconceito e muita oposição ao Espiritismo, por parte dos movimentos religiosos tradicionais e por parte dos ateus ou céticos em geral. Atribui-se, entretanto, um grande respeito ao codificador Allan Kardec e nota-se cada vez mais interesse pela sua obra. Há quase dez anos existem traduções para o francês dos livros de Chico Xavier, com procura crescente.

RIE – Como são as reuniões espíritas na atualidade? Quais as semelhanças com as reuniões realizadas na época de Kardec?
Charles – Na França, ainda são poucos os grupos que possuem membros e médiuns possuidores de experiência necessária para realizar reuniões espíritas como os trabalhos de desobsessão, ou como aquelas reuniões na Société Parisienne des Études Spirites dirigidas por Allan Kardec. A maioria dos grupos concentram suas atividades no estudo sistematizado, em palestras, em atendimento fraterno ou em reuniões de preces e vibrações.

RIE – Qual a sua opinião sobre o movimento espírita brasileiro?
Charles – O movimento espírita brasileiro começou a crescer poucos anos depois da codificação, que encontrou no Brasil uma terra fértil para o Consolador. Manteve um crescimento contínuo nos últimos 150 anos, graças ao trabalho de pioneiros que souberam imprimir ao movimento um caráter forte de caridade e de assistência social e desenvolveram os princípios da Doutrina Espírita encorajando sua prática e vivência. Como resultado, o Espiritismo conquistou um grande respeito no Brasil, que hoje conta com a simpatia de mais de 10% de sua população, na soma de todas as classes sociais. Hoje, o movimento espírita no Brasil é forte e dinâmico.

RIE – De que forma o CEI tem contribuído para a divulgação do Espiritismo?
Charles – O CEI tem na divulgação do Espiritismo uma das suas finalidades primeiras e realiza essa divulgação por vários meios. O principal dentre eles é o livro: contamos hoje com a Edicei, editora do Conselho Espírita Internacional, para operacionalizar este trabalho, através de várias entidades a ela ligadas, como a Edicei Europe, a Edicei of America e a Edicei Andina. O objetivo do CEI é colocar as obras da codificação à disposição do maior número de pessoas no mundo, organizando as traduções para outras línguas. Já existem traduções para pelo menos 16 idiomas além do francês, mas ainda faltam muitas outras línguas, especialmente o chinês e o árabe que cobrem uma grande parte da população do nosso planeta. Há também os Congressos Espíritas Mundiais, realizados a cada três anos: o sétimo ocorreu em março de 2013 em Havana, Cuba, e o próximo, o oitavo, ocorrerá em outubro de 2016 em Portugal.

RIE – Como você avalia a divulgação do Espiritismo na Europa? E no mundo?
Charles – A divulgação do Espiritismo está ganhando campo, embora de maneira ainda muito tímida. Os Espíritos da Codificação responderam a Kardec, na pergunta 932 de O Livro dos Espíritos, que os bons precisam ter mais audácia neste trabalho. Numa reunião mediúnica de apoio ao Movimento Espírita, um Espírito nos disse que já existem no mundo muitas pessoas prontas para acolher a Doutrina, mas a Doutrina ainda não está chegando até elas. Isso mostra a importância desta tarefa do CEI.

RIE – Quais países possuem obras para estudo do Espiritismo em idioma natal? Há alguma ação do CEI nesse sentido?
Charles – A Edicei já possui 220 títulos no seu catálogo em 14 línguas diferentes. Existem também outras traduções, por exemplo em japonês e em holandês. Foram também organizados seminários para a formação de monitores do ESDE em vários países da Europa, bem como nos encontros na América Latina. Os fascículos do ESDE, que a FEB colocou à disposição do movimento espírita mundial, também já foram traduzidos em três línguas e começam a ser utilizados com sucesso nos respectivos países.

RIE – Muitos palestrantes brasileiros têm atravessado o Oceano para divulgar o Espiritismo na Europa. Os resultados têm sido positivos? Qual a sua opinião a respeito?
Charles – Há uma tradição de visita de vários palestrantes de nível excelente, como Divaldo Pereira Franco, alcançando resultados muito positivos. Podemos citar também o excelente trabalho realizado pela Associação Médico-Espírita há vários anos em diversos países pelo mundo. Mas, tal como Chico Xavier e Waldo Vieira bem explicaram na obra Entre Irmãos de Outras Terras, antes de endereçar-se aos nativos de um determinado país, é necessário estudar com cuidado a cultura, as leis e os costumes da população local, respeitando-os e adaptando-se em conformidade. Isto influi sobre a seleção dos assuntos a tratar e a maneira de abordá-los. A falta de cuidado nestes aspectos pode gerar um efeito contrário entre os nativos, que acabam distanciando-se da doutrina: é o que temos observado em alguns casos. Algo que já nos aconteceu: em determinada cidade da Europa, tentávamos, já no prédio, localizar determinado grupo espírita cuja denominação adotava, inclusive, o nome de um famoso pesquisador do país. Recebemos a seguinte orientação: “Ah, aquele grupo de brasileiros? É no primeiro andar…”. É preciso colocar-se na situação de um nativo que busca ajuda para suas dificuldades e espera chegar a um grupo onde reine um bom ambiente de fraternidade, se possível até festivo. Onde se fala uma língua que não é a dele e que ele não entende haverá dificuldade de integração.

RIE – Há algum trabalho básico para educação espírita infantil? Em quais países? Há alguma dificuldade de implementação? E para os jovens?
Charles – Além do Brasil, o trabalho básico para educação espírita de crianças e jovens está bastante desenvolvido nos países da América Latina, da América Central e em Portugal. É também objetivo do CEI apoiar esta área, e já existem comissões de apoio no âmbito das Coordenadorias do CEI para a América Latina, para a América Central e Caribe e para a Europa (acessível no site http://cee-cei.blogspot.fr/). Essas comissões trabalham organizando material de sensibilização, de orientação e de apoio, nos seminários de capacitação de evangelizadores e no apoio a eventos em vários países, entre outros.

RIE – Qual tem sido o objetivo da realização dos congressos espíritas mundiais?
Charles – O objetivo principal dos congressos espíritas mundiais é a divulgação da Doutrina no mundo, numa escala maior e com impacto maior no país organizador. É também uma oportunidade de encontro e de aprendizado para os espíritas do mundo inteiro, pela qualidade das palestras e dos intercâmbios de informações. Para facilitar a participação nos congressos espíritas, já existem também congressos continentais, promovidos pelas Coordenadorias do CEI na América Latina e na América Central e Caribe.

RIE – Na Revue Spirite de 1865 Allan Kardec faz um comentário positivo sobre o que ele considerou o primeiro romance espírita: Spirite, por Théophile Gautier (1865). Como você avalia os romances espíritas no Brasil e no mundo?
Charles – Kardec elogiou o romance de Théophile Gautier, mas assinalou também que a Doutrina Espírita mostra a impossibilidade do que consta em alguns trechos do livro, fugindo da realidade. O mais importante é o conteúdo doutrinário ao longo das narrativas, através dos bons exemplos que podem servir diretamente aos leitores. Observa-se uma espécie de “moda” de romances de certos autores buscando um sucesso comercial, mas cujo conteúdo não apresenta um nível de qualidade doutrinária adequado.

RIE – O que você acha dos sites que disponibilizam obras espíritas para download sem autorização das editoras?
Charles – As leis nacionais e internacionais devem ser respeitadas. Não se deve infringi-las, colocando ilegalmente para downloads obras cujos direitos autorais ainda estão protegidos. Isso traz prejuízo para o próprio desenvolvimento dos trabalhos de divulgação da doutrina pelo mundo, pois as traduções, releituras, formatações, edições e distribuição têm custos que devem ser cobertos de maneira contínua e independente. Isso ocorre naturalmente quando se pode reinvestir os resultados de sua comercialização na produção de novos títulos: a Edicei não tem fins lucrativos.

RIE – Para encerrar, suas palavras para os espíritas do Brasil e do mundo.
Charles – Os Espíritos da Codificação nos advertiram que são chegados os tempos da transição do nosso planeta para um mundo de regeneração, num processo que levará alguns séculos. Eles contam com a colaboração de todos os trabalhadores de boa vontade que assumiram, antes de reencarnar, uma missão nesse sentido. Os trabalhadores espíritas já se beneficiam da Codificação e dos livros complementares, dando indicações preciosas sobre esse processo de transição, bem como os meios para alcançá-lo. A missão deles, trabalhadores da última hora, foi indicada de maneira explícita pelo Espírito Erasto em O Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. XX, nº 4). A caridade e a humildade devem substituir o egoísmo e o orgulho (LE, 785). Os verdadeiros espíritas esforçam-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores (LM, cap. III, nº 28), devendo assim dar o exemplo da Doutrina que abraçaram. Portanto, que o ideal de Unificação esteja presente no coração de cada trabalhador, juntando esforços dentro e além das fronteiras. Fora da caridade, não há salvação!

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