80 ANOS DE LANÇAMENTO DE “PARNASO DE ALÉM-TÚMULO”

O PRIMEIRO LIVRO

Os primeiros anos da década de 30 seriam marcados pela agitação, com inflação, desemprego e greves; organizacões políticas de direita e de esquerda passaram a agir, o que forçou o presidente Getúlio Vargas a exigir do Congresso a aprovação da Lei de Segurança Nacional.

Manuel Quintão estava convicto de ter em mãos originais de qualidade indiscutível, entendendo que aquela era a mensagem do momento para a conturbada sociedade brasileira, tanto que publicou de imediato no Reformador — órgão da Federação Espírita Brasileira —, de 1° de novembro de 1931, artigo a respeito de Chico Xavier. Entre outras considerações, ele escreveu:

“Pedro Leopoldo é um pequeno povoado do rincão mineiro. Nem Atenas, nem ateneus, ali. Mas, ali vive o irmão Francisco Xavier, um adolescente, quase criança. Vinte anos em flor(1). Floração pobre, de economia e trabalho. Muita inteligência, muita modéstia, poucos livros, escasso tempo, precário estudo.

Saído da escola primária aos 13 anos, o médium-poeta trabalha no comércio local, de sol a sol. E nas horas fugaces de fugaz repouso, estuda a Doutrina e faz versos. Versos seus e versos de outros. Ele os distingue perfeitamente e nós também, porque são inconfundíveis. A nós, não precisaria dizer de seu espanto e das suas incertitudes, se deve ou não deve vulgarizar o fato.

Nem é preciso ponderar a capacidade intrínseca do seu estro, para encontrar o ascendente mediúnico, que só a variedade da produção em fidelidade de estilos e amplitude de conhecimentos autentica.

Veja o leitor a poesia abaixo transcrita, e diga-nos se ela não caracteriza de modo inconfundível o bizarro e malogrado poeta do Eu. Pois, deste e de outros grandes cultores do verso, quais Junqueiro, João de Deus etc., manda-nos Xavier (este é Cândido Xavier(2)), um manípulo de poesias, qual mais bela e mais típica, que merecem ser editadas como prova de que, enquanto os foliculários, os energúmenos, os misoneístas cá de baixo coaxam no lameiro, lá de cima, ad majorem veritatis gloriam(3), cantam os poetas a nihilidade do lameiro”.

Em seguida, na página 580, a publicação pela primeira vez de uma psicografia de Francisco Cândido Xavier, o poema do Espírito Augusto dos Anjos:

Análise

Oh! Que desdita estranha a de nascermos

Nas sombras melancólicas dos ermos,

Nos recantos dos mundos inferiores,

Onde a luz é penumbra tênue e vaga,

Que, sem vigor, fraquíssima, se apaga

No furação indômito das dores.

Voracidade onde a alma se mergulha,

Apoucado Narciso que se orgulha

Na profundeza ignota dos abismos

Da carne, que, estrambótica, apodrece;

Que atrofiada, hipertrófica, parece

Cataclismo dos grandes cataclismos.

Prendendo-nos ao fogo dos instintos.

Serpente entre escrófulas e helmintos,

Multiplicando as lágrimas e os trismos,

Tendo a alma — centelha, luz e chama —

Amalgamada em pântanos de lama,

E sexualidades e histerismos.

Misturarmos clarões de sentimentos

Entre vísceras, nervos, tegumentos,

Na agregação da carne e dos humores,

Atrocidade das atrocidades;

Enegrecermos luminosidades

Na macabra esterqueira dos tumores.

E nisto achar fantásticos prazeres,

Ilusão hiperbólica dos seres

Bestializados, materializados,

Espíritos em ânsias retroativas,

No transcorrer das vidas sucessivas,

Nas ferezas do instinto, atassalhados…

Mas a análise crua do que eu via,

Hedionda lição de anatomia,

É mais que uma atrevida aberração;

Que se quebre o escalpelo de meus versos:

Entreguemos a Deus seus universos

Que elaboram a eterna evolução.

Augusto dos Anjos

Em 1º de dezembro de 1931, nas páginas 635 e 636 do Reformador, aparece o poema O Padre João, do Espírito Guerra Junqueiro, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Foi o segundo a ser publicado. Na edição de 16 de abril de 1932 do Reformador, páginas 236 e 237, Manuel Quintão escreve, na seção Casos e Coisas: “Já está no prelo o Parnaso de Além-Túmulo, preciosa coletânea de poesias rnediúnicas, cuja excelência e vigorosa autenticidade já proclamamos nestas colunas.”

No mesmo texto, Quintão faz alguns comentários a respeito do jovem médium: “Humilde, simples, desprendido de glórias efêmeras, sem estudos especializados, sem conhecimentos universalizados, talvez por isso mesmo, e só por isso, fosse o escolhido para esta demonstração tácita e formidável da sobrevivência do ser consciente, integral.”

Por fim, Quintão diz aos leitores o que os aguarda: “Xavier, porém, impõem-se-nos pela fecundidade, variedade e beleza dos tons, apresentando-nos estilos variados, ritmos e escolas inconfundíveis, antigos e modernos”.

A mesma edição da revista brinda o leitor, na página 230, com a divulgação do soneto Em Paz, de Auta de Souza, informando: “Do Parnaso de Além-Tumulo, prestes a ser publicado.”

Finalmente, em 9 de julho de 1932, a livraria da Federação Espírita Brasileira fazia o lançamento do Parnaso de Além-Túmulo, de Francisco Cândido Xavier. Um volume com 156 páginas, editado em dois acabamentos: brochura, ao custo de $ 5.000 réis; e encademado, por $ 7.000 réis; encomendas por via postal tinham acréscimo de $ 500 réis por livro. A obra foi distribuída em todo o Brasil, no âmbito do movimento espírita, aonde chegavam as edições FEB. Em novembro, bem discretamente, a Livraria Allan Kardec Editora (LAKE) lançou Cartas de Uma Morta*, de Maria João de Deus, psicografado por Francisco Cândido Xavier.

Manuel Quintão fez a apresentação, à guisa de prefácio, seguido de um texto de Chico Xavier, Palavras Minhas; no corpo da obra, poesias de Antero de Quental, Augusto dos Anjos, Auta de Souza, Bittencourt Sampaio, Casimiro de Abreu, Casimiro Cunha, Castro Alves, Cruz e Souza, Guerra Junqueiro, João de Deus, Júlio Diniz, Pedro de Alcântara, Souza Caldas e “Um Desconhecido”.

Entre outras considerações, disse Quintão:

“Duvidamos que o mais solerte plumitivo, o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar, sequer, ainda que premeditadamente, esta produção. E isto o dizemos porque o médium Xavier, um quase adolescente, sem lastro, portanto, de grande cultura e treino poético, recebe-a de jato, e mais — quando de alguns autores não conhece uma estrofe!

É extraordinário, será maravilhoso, mas é a verdade nua e crua; verdade que, qual a Luz, não pode ficar debaixo do alqueire.

Foi por assim pensarrnos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público, em geral, e aos confrades, em particular, esta obra mediúnica, que, certo estamos, ficará como baliza fulgurante, na história, a tracejar do Espiritisrno em nossa pátria.

Mas, perguntarão: quem é Francisco Cândido Xavier? Será urn rapaz culto, um bacharel formado, um acadêmico, um rotulado desses que por aí vão felicitando a Família, a Pátria e a Humanidade?

Nada disso.

O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos, um quase adolescente, nascido ali assim em Pedro Leopoldo, pequeno rincão do Estado de Minas. Filho de pais pobres, não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira, que faz do mestre-escola, em tese, um galopim eleitoral e não vai, também em tese, muito além das quatro operações e da leitura corrida, com borrifos de catecismo catolico, de contrapeso.

Órfão de mãe aos cinco anos, o pai infenso a literatices e, ao demais, premido pelo ganha-pão, é bem de ver-se que não teve, que não podia ter o estímulo ambiente, nem uma problemática hereditariedade, nem um, nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Calíope e Polímnia.

Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz, em linguagem eloquente, porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões, para não pretender colimar renomes literários.

Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais — de vez que, em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários, mas da ferramenta por eles utilizada, tanto quanto do seu manuseio; e não querendo, por outro lado, endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar, mas cujo flagrante não presenciamos — ele, o médium, veio “candidamente” ao nosso encontro com Palavras Minhas, nas quais estereotipa a sua figura moral, tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno.”

*

Agora, nas palavras de Chico Xavier, o que ele informou ao leitor a respeito de como psicografou os poemas:

“Em agosto do corrente ano, apesar de muito a contragosto de minha parte, porque jamais nutri a pretensão de entrar em contato com essas Entidades elevadas, por conhecer as minhas imperfeições, comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas, assinadas por nomes respeitáveis.

Serão das personalidades que as assinam? – É o que não posso afiançar. O que posso afirmar, categoricamente, é que, em consciência, não posso dizer que são minhas, porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. A sensação que sempre senti, ao escrevê-las, era a de que vigorosa mão impulsionava a minha. Doutras vezes, parecia-me ter em frente um volume imaterial, onde eu as lia e copiava; e, doutras, que alguém mas ditava aos ouvidos, experimentando sempre no braço, ao psicografá-las, a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem, acontecendo o mesmo com o cérebro, que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. Certas vezes, esse estado atingia o auge, e o interessante é que parecia-me haver ficado sem o corpo, não sentindo, por momentos, as menores impressões físicas. É o que experimento, fisicamente, quanto ao fenômeno que se produz frequentemente comigo.

Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse; essas produções chegaram-me sempre expontaneamente, sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou, em particular, o nome de qualquer dos comunicantes, em nossas preces. Passavam-se às vezes mais de dez dias, sem que se produzisse escrito algum, e dia houve em que as receberam mais de três produções literárias de uma só vez. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que, quanto menor o número de assistentes, melhor o resultado obtido.

Muitas vezes, ao recebermos uma destas páginas, era necessário recorrermos a dicionários, para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas, porque tanto eu quanto meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância, julgando minha obrigação frisar aqui também que, apesar de todo o meu bom desejo, jamais obtive outra coisa, na fenomenologia espírita, a não ser esses escritos(4).

Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. Carmen P. Perácio, que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo, transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais, e ainda o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. M. Quintão, que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo, não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade.

E aqui termino.

Terei feito compreender, a quem me lê, a verdade como de fato ela é? Creio que não. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e, noutros, risinhos ridiculizadores. Há de haver, porém, alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. Um desses que haja, entre mil dos primeiros, e dou-me por compensado do meu trabalho.”

*

Chico Xavier jamais esqueceria o apoio de Manuel Quintão. Em conversa com J. Martins Peralva — diálogo registrado pelo Dr. Elias Barbosa —, indagado a respeito de quem fora o responsável pelo lançamento de seu primeiro livro, ele respondeu:

— Tivemos em Manuel Quintão, o nosso inesquecível amigo da Federação Espírita Brasileira, o apoio decisivo para o lançamento de Parnaso de Além-Túmulo, o primeiro livro de nossas modestas faculdades mediúnicas, em 1932. Desde o início de nossas atividades na seara espírita, encontrei nele um orientador, cuja dedicação não posso esquecer. De uma bondade infatigável e de uma paciência sem limites para comigo, Manuel Quintão foi para mim, desde o nosso prirneiro contato, um mentor amigo e um guia paternal, que vive constantemente ern meu culto pessoal de carinho e gratidão.

Lançado o livro, vieram as repercussões, implausíveis umas, razoáveis outras; as mais honestas, porém — entre umas e outras —, de autêntica perplexidade. Se nas primeiras décadas a obra causou muitas polêmicas, nas últimas tem provocado certo interesse nos meios acadêmicos, onde teses, pesquisas e outros trabalhos têm sido desenvolvidos com alguma isenção.

Livro: Chico Xavier, O Missionário do Amor – Sua Vida e Sua Obra

J. G. Pascale

DPL – Editora e Distribuidora de Livros Ltda.

Notas do autor:

l. Na verdade, Chico Xavier já havia cumpletado 21 anos.

2. Trocadilho (jogo de palavras) com gíria da época: cândido = ingênuo, inocente; xavier = desenxabido, acanhado, encalistrado.

3. Em latim: Para maior glória da verdade.

4. A Editora (FEB) acrescentou uma nota de esclarecimento, ressalvando o lapso do médium: “Ao escrever estas palavras, o autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados, mantidas desde os 5 anos de idade, pertencem igualmente à fenomenologia espírita. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade nas sessões espíritas; mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele, desde a infância, confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele: “Estás vendo ali um homem de barbas brancas etc.?”Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. Também isso são fenômenos espíritas.”

Nota de Fernando Peron (maio de 2012):

(*) – Provável equívoco do autor. Segundo todos os registros disponíveis, a obra Cartas de Uma Morta (Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Maria João de Deus, LAKE – Livraria Allan Kardec Editora) só foi lançada em 1935. O próprio prefácio do médium, inclusive, é datado de 25 de junho de 1935.

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