As outras pessoas

AS OUTRAS PESSOAS

Pelo Espírito Emmanuel. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Rumo Certo. Lição nº 36. Página 131.

Diante de qualquer pessoa, seja quem seja, inclina-te à bondade e começa por endereçar-lhe um pensamento de simpatia.

Se renteias com alguém que admiras pelas virtudes que lhe exornam o caráter, pondera os riscos a que essa criatura se vê exposta pela altura a que se guindou e, calculando os sacrifícios que terá ela feito para alcançar as responsabilidades em que se situa, oferece-lhe apoio, para que não se lhe desafinem as cordas da alma.

À frente de outra pessoa que consideres errada, com mais razão orarás por ela, rogando o auxílio da Vida Maior, em seu favor, a fim de que se lhe refaçam as forças.

Farás ainda mais… Meditarás nas muitas vezes em que essa criatura haverá sofrido o impacto das tentações que lhe assaltaram a estrada e não acharás motivo para estranheza ou condenação se refletires nas lágrimas que ela terá vertido, até que a loucura mental lhe impulsionasse o coração para o colapso das energias morais em que se escorava dificilmente.

Todos somos defrontados no cotidiano por inúmeras pessoas que a vida nos traz à observação.

Recebamo-las todas na condição de criaturas irmãs, portadoras de recursos e fraquezas, esperanças e sonhos, tarefas e lutas, problemas e dores semelhantes aos nossos.

Consideremos, sobremaneira, que ninguém se aproxima de alguém pedindo reprovação ou azedume.

Todos carecemos de compreensão e bondade.

Quando estamos em paz, o conselho que nos induz ao aperfeiçoamento moral lembra a lâmpada acesa impelindo-nos para a frente.

Entretanto, quando desajustados pelas consequências de nossos próprios erros, já carregamos em nós próprios fardos de angústia suficiente para suplício do coração.

Doemos a quantos se abeirem de nós o melhor que pudermos: o entendimento e a fraternidade a boa palavra e o serviço nobilitante.

Convençamo-nos todos de que todos os males, os nossos e os dos outros, ficarão um dia para trás, em definitivo. Toda sombra chega e passa à feição de nuvem perante o Sol.

Permanecerá no Universo, acima de tudo e para sempre, o Sol da Providência Divina.

E na Luz da Providência Divina todos os mundos e todos os seres se encadeiam na corrente do amor eterno, em permanente e vitoriosa sublimação.

A Advogada do Adultero – André Luiz Gadelha

A ADVOGADA DO ADÚLTERO

Um acidente automobilístico provoca as passagens de Kleber e Maura, a sua esposa.

Na esfera invisível, o desencarne revela, à Maura, o desrespeito ao matrimônio praticado pelo marido ao longo dos últimos 17 anos.

Então, Maura, carregada pela mágoa e pelo ódio, passa a perseguir Kleber, formando um laço de compromisso que mais assemelhava-se a um grilhão que aprisionava um ao outro. De um lado estava Kleber que sofria as investidas da magoada esposa, além do sentimento de culpa que o torturava, pois admitia que, se a esposa sofria, realmente era por sua culpa. Do outro lado estava Maura, mergulhada em ódio cego que escurecia o seu períspirito a cada emissão de cólera contra o esposo.

Porem, ao Alto, chega a prece de Fernanda, companheira de Kleber fora do casamento.

Kleber e Fernanda se conheceram num restaurante onde ele era cliente assíduo e ela era uma das garçonetes. De imediato, levado por conhecimentos de vidas pretéritas, se reconheceram e se reafeiçoaram. Fernanda, então mãe de uma criança de 5 anos, deixada à própria sorte pela irresponsabilidade do namorado, lutava por criar o filho e manter um lar ao custo de muito trabalho e pouco salário. A afeição e a inconsequência os levaram ao relacionamento proibido.

Em lágrimas de saudade, dizia Fernanda:

– Querido Jesus. Quem sou eu para desejar que as minhas palavras cheguem até Ti. Porém, não quero pedir por mim. Quero pedir pelo homem que muito fez por mim e pelo meu filho.

Sei que ele errou, pois adultério é pecado. Sei que é errado arrumar outra família fora do casamento, porém, na verdade, Kleber foi um homem bom.

Ele me ajudou a ter uma casa decente, onde tive a chance de criar o meu filho longe dos maus exemplos que ele tinha nas ruas. O Senhor bem sabe o quanto de preocupação enchia o meu coração enquanto ia trabalhar, sabendo que, após a escola, ele iria ficar na rua com outros meninos que, mais tarde, sucumbiram aos erros e viveram tão pouco. Talvez, se não fosse esse homem, o meu filho teria o mesmo destino.

Por mim, Jesus, ele ficaria na escola o dia inteiro, mas não tinha dinheiro para isso. Só com o Kleber foi que passei a ter paz, pois o meu filho pode melhorar os estudos e ocupar todo o dia com a ajuda deste homem.

É graças a esse homem que o meu filho, hoje, é um rapaz saudável e com estudos. Graças a esse homem, Jesus, o meu filho teve um destino que não poderia dar.

O meu filho teve um pai, ainda que não em todos os instantes. Porém, nos poucos momentos juntos, Kleber o abraçou e aconselhou como se fosse filho do seu sangue.

Se tiver que castigar alguém, Jesus, castigue a mim que, confesso, simpatizei por ele e, mesmo após saber que era casado, deixei que tudo acontecesse. Não sei porque, mas deixei.

Então, é a mim que tens que castigar e, não, a ele que é um bom homem.

Ainda mais porque ele me ofereceu tudo o que a minha má sorte não me ofereceria sem deixar que nada faltasse na sua verdadeira família, seja de carinho ou material. Nunca, a pretexto de mim, virou as costas a sua família original.

Por favor, Jesus, peço-te que me atenda. Guarde as dores do castigo para mim. A ele, peço a sua absolvição.

Tão fervorosa e sincera prece foi ouvida e atendida. Um grupo de irmãos de luz se disponibilizou a descer até ao encontro de Kleber e Maura para resgatá-los da triste situação em que se encontravam. Não para, exatamente, absolver, pois, um mal feito a pretexto do bem continua sendo um mal. Mas, sim, para que se atenuassem as mágoas e o ódio no casal, dando condições favoráveis para, no futuro, em outra chance na carne, receberem Fernanda como filha.

Que Jesus continue nos abençoando

Ante o Próximo

ANTE O PRÓXIMO

Pelo Espírito Maria Dolores.

Mensagem recebida por Francisco Cândido Xavier, no Lar da Caridade (Ex-Hospital do Pênfigo) em Uberaba, na reunião de 12.04.1983. 

      Livro: Uma Vida de Amor e Caridade. Página 110.

… E quem é o meu próximo? – indaguei

Ao coração da vida

E o coração da vida obedecendo a Lei

Respondeu com voz clara e decidida:

Olha em redor de ti, onde o dever te leve

Do espaço livre e amplo à senda estreita e breve.

Fita em teu próprio lar:

É teu pai, tua mãe, teu irmão, teu parente,

E mais além do Grupo familiar,

É o vizinho piedoso e intransigente,

É o mendigo a esmolar que te visita a porta,

O amigo suscetível de amparar-te

É aquele que padece

Privação ou problema em qualquer parte.

É aquele que te esquece

E o outro que te humilha,

A esconder-se no ouro em que se alteia e brilha

Para depois cair quando se desilude.

É aquele que se faz bandeira da virtude,

E o outro que te apóia ou te faz concessões.

É aquele que te furta o lugar e o direito

Alimentando a sombra do despeito

Sem que te saiba ver as intenções.

É a mulher que te guia para o bem

E a outra que atravessa as áreas de ninguém

Avinagrando corações…

O próximo, afinal, seja onde for,

Será sempre a criatura

Que te busca onde estás

Procurando por ti o socorro da paz,

Rogando-te bondade, amparo e compreensão

Amizade e calor

Dando-te o nobre ensejo,

De seguir para a luz na presença do amor.

E posso sem o próximo viver? – perguntei comovida

E disse novamente o coração da vida:

Acende sem cessar a luz do Bem,

Trabalha, serve, crê, chora, sofre e auxilia…

Sem o próximo em tua companhia

Nunca serás alguém!…

Pão

PÃO

Pelo Espírito Emmanuel. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Palavras de Vida Eterna. Lição nº 134. Página 284.

“Eu sou o pão da vida.” – Jesus. João 6:48.

Importante considerar a afirmativa de Jesus, comparando-se ao pão.

Todos os povos, em todos os tempos, se ufanam dos pratos nacionais.

As mesas festivas, em todas as épocas, banqueteiam-se com viandas exóticas.

Condimentação excitante, misturas complicadas, confeitos extravagantes, grande cópia de animais sacrificados.

Às vezes, depois das iguarias tóxicas, as libações de entontecer.

O pão, no entanto, é o alimento popular.

Ainda mesmo quando varie nos ingredientes que o compõem e nos métodos de confecção em que se configura, é constituído de farinha amassada e vulgarmente fermentada e que, depois de submetida ao calor do forno, se transforma em fator do sustento mundial.

Sempre o mesmo, na avenida ou na favela, na escola ou no hospital.

Se lhe adicionam outra espécie de quitute, entre duas fatias, deixa de ser pão, é sanduíche.

Se lançado à formação de acepipe que o absorva, naturalmente desaparece.

O pão é invariavelmente pão.

Quando alguém te envolva no confete da lisonja, insuflando-te vaidade, não te dês à superestimação dos próprios valores. Não te acredites em condições excepcionais e nem te situes acima dos outros.

Abraça nos deveres diários o caminho da ascensão, recordando que Jesus – o Enviado Divino e Governador Espiritual da Terra – não achou para si mesmo outra imagem mais nobre e mais alta que a do pão puro e simples.

Louvores Recusados

LOUVORES RECUSADOS

Pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos).

Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Contos e Apólogos.  Lição nº 13. Página 61.

Conta-se no plano espiritual que Vicente de Paulo oficiava num templo aristocrático da França, em cerimônia de grande gala, à frente de ricos senhores coloniais, capitães do mar, guerreiros condecorados, políticos ociosos e avarentos sórdidos, quando, a certa altura da solenidade, se verificou à frente do altar inesperado louvor público.

Velho corsário abeirou-se da sagrada mesa eucarística e bradou, contrito:

– Senhor, agradeço-te os navios preciosos que colocaste em meu roteiro. Meus negócios estão prósperos, graças a ti, que me designaste boa presa. Não permitas, ó Senhor, que teu servo fiel se perca de miséria. Dar-te-ei valiosos dízimos. Erguerei uma nova igreja em tua honra e tomo os presentes por testemunhas de meu voto espontâneo.

Outro devoto adiantou-se e falou em voz alta:

– Senhor, minhalma freme de júbilo pela herança que enviaste à minha casa pela morte de meu avô que, em outro tempo, te serviu gloriosamente no campo de batalha. Agora podemos, enfim, descansar sob a tua proteção, olvidando o trabalho e a fadiga.

Seja louvado o teu nome para sempre.

Um cavalheiro maduro, exibindo o rosto caprichosamente enrugado, agradeceu:

– Mestre Divino, trago-te a minha gratidão ardente pela vitória na demanda provincial. Eu sabia que a tua bondade não me desprezaria. Graças ao teu poder, minhas terras foram dilatadas. Construirei por isso um santuário em tua memória bendita, para comemorar o triunfo que me conferiste por justiça.

Adornada senhora tomou posição e exclamou:

– Divino Salvador, meus campos da colônia distante, com o teu auxílio, estão agora produzindo satisfatoriamente. Agradeço os negros sadios e submissos que me mandaste e, em sinal de minha sincera contrição, cederei à tua igreja boa parte dos meus rendimentos.

Um homem antigo, de uniforme agaloado, acercou-se do altar e clamou estentórico:

– A ti, Mestre da Infinita Bondade, o meu regozijo pelas gratificações com que fui quinhoado. Os meus latifúndios procedem de tua bênção. É verdade que para preservá-los sustentei a luta e alguns miseráveis foram mortos, mas quem senão tu mesmo colocaria a força em minhas mãos para a defesa indispensável? Doravante, não precisarei cogitar do futuro… De minha poltrona calma, farei orações fervorosas, fugindo ao imundo intercâmbio com os pecadores. Para retribuir-te, ó Eterno Redentor, farei edificar, no burgo onde a minha fortuna domina, um templo digno de tua invocação, recordando-te os sacrifícios na cruz! Os agradecimentos continuavam, quando Vicente de Paulo, assombrado, reparou que a imagem do Nazareno adquiria vida e movimento…

Extático, viu-se à frente do próprio Senhor, que desceu do altar florido, em pranto.

O abnegado sacerdote observou que Jesus se afastava a passo rápido; contudo, em se sentindo junto dele, em se, sentindo e perguntou-lhe, igualmente em lágrimas:

– Senhor, por que te afastas de nós?

O Celeste Amigo ergueu para o clérigo a face melancólica e explicou:

– Vicente de Paulo, sinto-me envergonhado de receber o louvor dos poderosos que desprezam os fracos, dos homens válidos que não trabalham, dos felizes que abandonam os infortunados…

O interlocutor sensível nada mais ouviu.

Cérebro turbilhão desmaiou, ali mesmo, diante da assembléia intrigada, sendo imediatamente substituído, e, febril, delirou alguns dias, prisioneiro de visões que ninguém entendeu.

Quando se levantou da incompreendida enfermidade vestiu-se com a túnica da pobreza, trabalhando incessantemente na caridade, até ao fim de seus dias.

Os adoradores do templo, entretanto, continuaram agradecendo os troféus de sangue, ouro e mentira, diante do mesmo altar e afirmaram que Vicente de Paulo havia enlouquecido.

Homossexualidade

O Rico Arrependido – André Luiz Gadelha

O RICO ARREPENDIDO

– Não dá, Allan. Você não pretender crescer. Desculpe-me, mas não quero isso para mim.

Essas foram as últimas palavras de Catarina ao, agora, ex namorado Allan.

Allan, então com 26 anos, não pretendia sair da casa dos pais. Não era má pessoa, porem não tinha grandes planos para a sua existência.

Durante a sua vida escolar, se não fosse a intensa e incansável presença dos pais, Allan não terminaria, nem mesmo, os estudos básicos. Com muito esforço, obteve o diploma de ensino médio, em colégio de poucas cobranças. Negou-se a fazer um curso técnico e, muito menos, um de nível superior.

Com a lida no trabalho, Allan era disciplinado e dedicado, mas negava qualquer chance de crescimento, sempre dedicando-se aos labores mais simples, ainda que tivesse condições de aproveitar chances melhores.

– Do jeito que está, está bom. Mais? Para quê? Já ganho meu dinheirinho e pronto. – argumentava Allan.

Mas, nem sempre foi assim.

Voltando em pouco mais de uma centena de anos no tempo, vamos encontrar Ernesto.

Ao lado do pai, aprendeu, desde cedo, a lidar com a terra, fonte do sustento de toda a família.

Com o tempo, sempre ao lado do pai, as negociações com o café foram se desenvolvendo, levando a simples casa do início a uma enorme e belíssima fazenda.

Mais tarde, quando as forças somáticas do genitor se esgotaram, Ernesto assume o império já existente.

Em nome de perpetuar o conforto da família e de honrar o esforço do pai, Ernesto faz os ganhos crescerem.

Driblou crises, fechou grandes negociações, inclusive com o estrangeiro e chegou a se tornar um dos maiores fornecedores de produtos agrícolas do governo, até que chegou a sua vez de ter as forças exauridas.

No mundo espiritual, Ernesto conheceu, por um bom tempo, somente, a dor.

Testemunhou a briga entre os parentes sedentos pela fortuna deixada. Nem, sequer, esperou-se o corpo esfriar, havendo o início das contendas gananciosas antes do 7º dia.

Dos filhos, nenhum se interessou por continuar o seu trabalho, que foi deixado em mãos de desonesto administrador.

As gastanças dos parentes somadas às ações de desvio administrativo culminaram na total lapidação da fortuna, deixando a família em necessidades.

Tudo isso fez com que Ernesto, na pátria espiritual, experimentasse fortes dissabores, permanecendo, por anos, mergulhado no fel da mágoa.

– Para quê tanto trabalho? Para quê juntar riquezas? Para isso? – Indagava Ernesto de forma melancólica.

Um dia, entregando-se em prece sincera, Ernesto rogou por auxílio, pois estava cansado de sofrimento. Foi, então, socorrido e levado à colônia onde recebeu auxílio, reequilíbrio e orientação.

Lá trabalhou, sendo útil aos propósitos do Alto, até que lhe foi dada a oportunidade de voltar à Terra, em novo corpo, para fazer diferente do que fez no passado.

Foi quando reencarnou como Allan, ainda tão marcado pelos traumas do passado a ponto de não pretender crescer.

Que Jesus continue nos abençoando.

Rio de Janeiro, 16 de Fevereiro de 2017

Agradecimentos esquecidos

AGRADECIMENTOS ESQUECIDOS

Pelo Espírito André Luiz. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Fé. Lição nº 20. Página 70.

Sempre ágeis e satisfeitos para manifestar a nossa gratidão pelas alegrias com que somos favorecidos, saibamos cultivar os agradecimentos, habitualmente esquecidos, ante os contratempos que nos esclarecem, tais quais sejam:

– O parente irritadiço que nos impele a praticar tolerância e paciência;

– O constrangimento orgânico, induzindo-nos a preservar os valores da saúde possível;

– O prejuízo que nos amplia o discernimento;

– O amigo que nos abandona, obrigando-nos a intensificar a confiança em nós mesmos;

– O desengano em assuntos afetivos que nos leva a compreender os erros dos outros e a desculpá-los;

– A petição sonegada, impulsionando-nos ao exercício da humildade e da persistência;

– O problema que nos desafia, ensinando-nos a arte de pensar com decisão e segurança.

Decididos a agradecer todas as ocorrências do cotidiano que se expressam na base do“a favor,” lembremo-nos dos benefícios que a vida nos oferta nos acontecimentos considerados do “contra.”

O motor realmente assegura a movimentação do carro, nessa ou naquela direção, mas o freio é que nos evita o desastre.

Perante Jesus

PERANTE JESUS

Pelo Espírito Emmanuel. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Palavras de Vida Eterna. Lição nº 12. Página 37.

“Porventura sou eu, Senhor?” Mateus, 26:22.

Diante da palavra do Mestre, reportando-se ao espírito de leviandade e defecção que o cercava, os discípulos perguntaram afoitos:

– “Porventura sou eu, Senhor?”

E quase todos nós, analisando o gesto de Judas, incriminamo-lo em pensamento.

Por que teria tido a coragem de vender o Divino Amigo por trinta moedas?

Entretanto, bastará um exame mais profundo em nós mesmos, a fim de que vejamos nossa própria negação à frente do Cristo.

Judas teria cedido à paixão política dominante, enganado pelas insinuações de grupos famintos de libertação do jugo romano… Teria imaginado que Jesus, no Sinédrio, avocaria a posição de emancipador da sua Terra e da sua gente, exibindo incontestável triunfo humano…

E, apenas depois da desilusão dolorosa e terrível, teria assimilado toda a verdade!…

Mas nós?

Em quantas existências e situações tê-lo-emos vendido no altar do próprio coração, ao preço mesquinho de nosso desvairamento individual?

– Nos prélios da vaidade e do orgulho…

– Nas exigências do prazer egoísta…

– Na tirania da opinião…

– Na crueldade confessa…

– Na caça da fortuna material…

– Na rebeldia destruidora…

– No olvido de nossos deveres…

– No aviltamento de nosso próprio trabalho…

Na edificação íntima do Reino de Deus, meditemos nossos erros conscientes ou não, definindo nossas responsabilidades e débitos para com a vida, para com a Natureza e para com os semelhantes e, em todos os assuntos que se refiram à deserção perante o Cristo, teremos bastante força para desculpar as faltas do próximo, perguntando, com sinceridade, no âmago do coração:

– “Porventura existirá alguém mais ingrato para contigo do que eu, Senhor?”